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Intelectualidade negra e arte em heitor dos prazeres


* por Vinícius Natal

Imagem: Revista Manchete, 06/04/1963.


É impensável que ainda não se ensine a obra de Heitor dos Prazeres nas escolas como conteúdo obrigatório. O homem fundou, dentre outras escolas de samba, Portela, Mangueira e Vizinha Faladeira, criou um método próprio de tocar cavaquinho, participou do I Festival Mundial de Artes Negras, em 1966, no Senegal, ganhou o terceiro prêmio na I Bienal de Artes de São Paulo e era presença frequente nos principais salões de arte do mundo. Mesmo com tamanha relevância, boa parte da mídia classificava sua obra como "primitiva, ingênua e naif" : "Ele tem prazer em pintar o que vê e o que sente, sem nada forçado e rebuscado", dizia a Revista Manchete da década de 50. Entender a obra de Heitor dos Prazeres como uma expressão consciente de um projeto de Brasil que passava, necessariamente, por enxergar o protagonismo do negro, das favelas, do samba e das macumbas, é assumir que Heitor sabia muito bem o que estava pintando e compondo. Heitorzinho dos Prazeres, seu filho, em depoimento ao Museu do Samba, entende que seu pai tinha uma aguçada consciência racial e social, nunca pintando nenhum negro em condição inferior. Contou que Heitor trabalhou como marceneiro junto com Paulo da Portela, bamba que andava com "pés e pescoços ocupados". Quando pequeno, relembra que sempre ouvia de seu pai que "Homem de bem não sente nem frio nem calor, está sempre alinhado e apresentável". O homem de bem, no caso, era o homem negro. O que provoco nesse breve texto é a necessidade de pensar como o samba sempre produziu uma intelectualidade que, assumindo projetos próprios, cantando, pintando e marcando a presença com seus corpos carnavalescos, propôs uma ideia de Brasil que, na maioria das vezes, fora silenciada. Precisamos, cada vez mais, pensar o samba e as escolas de samba como instituições criadas não só para mediar as relações "morro-asfalto", mas, principalmente, também com o objetivo do fortalecimento dos laços identitários de grupos e famílias negras , no pós-abolição da escravidão na cidade no Rio de Janeiro. Vamo que vamo!






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