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a sociabilidade nas quadras de escolas de samba

* Por Vinícius Natal



Foto: Acadêmicos do Cubango, final de samba para o carnaval 2019. Reprodução Instagram


Antes de tudo, gostaria de dizer que é muito prazeroso utilizar esse blog como uma maneira de me comunicar de forma mais direta com sambistas e apreciadores de um bom e franco papo. Já tinha essa ideia há um bom tempo e, ao encontrar o amigo Mauro Cordeiro nos sambas e academias da vida - que também possuía a mesma vontade mas não tinha a coragem de "botar a cara no sol", assim como eu - resolvemos juntar nossos receios e nos unir para falar junto aos nossos.

Portanto, mais que afirmar verdades absolutas, nosso objetivo é tentar responder: afinal, o que são escolas de samba? Quais são suas contradições? Maria Laura Cavalcanti já nos falava sobre o "conhecer desconhecendo", ou seja, nem sempre tudo que nos parece familiar é, automaticamente, conhecido. Queria deixar, aqui, essa minha incapacidade assumida de compreensão do samba em sua totalidade. Jamais teria essa pretensão.


Cabe dizer, também, que sou um pesquisador formado pelo samba e pela escola de samba pois, antes de historiador e antropólogo eu já era sambista. Isso basta, nesse momento para entender o meu lugar entremeado por teorias das ciências humanas mas, muito mais, por uma vivência cotidiana de barraquinhas, barracões e terreiros, que pretendo desafiar constantemente.

Não sou daqueles otimistas que defendem a pandemia em um lado bom. O COVID nos gerou um grande desconforto e profunda tristeza pela morte irresponsável de mais de 100 mil pessoas e, com isso, só o enxergo como uma grande tragédia humana. Entretanto, de forma compulsória, fomos obrigados a nos afastar de nossos afazeres cotidianos e, a partir desse movimento, o distanciamento do olhar, que já é um exercício doloroso no fazer das pesquisas em ciências humanas, se tornou uma consequência inevitável. Se afirmei, acima, que nada sabia, muito do meu desconhecimento se comprovou quando, distante do cotidiano efervescente sambístico, consegui olhar com uma visão mais "afastada" para alguns aspectos fundamentais para a formação de uma escola de samba. Dividirei, aqui, uma série dessas inquietações.

Uma das reflexões que me peguei fazendo esses dias foi sobre o que representa a quadra para sua escola de samba e , acima de tudo, para os sambistas. Quem já teve a oportunidade de pisar em uma sabe, certamente, a emoção que é transitar por esses espaços recheados de sentidos. As quadras de escolas de samba são locais que atuam como sede sociais das agremiações, abrigando células de seu aparato administrativo, projetos sociais, reuniões que visam a organização do desfile, etc. Em um trânsito intenso de pessoas é, ainda, um ambiente onde sambistas se encontram, brigam e reconciliam. Possuem como função principal não só dar chão ao divertimento, mas também embasar a sociabilidade do cantar, compor, batucar, vivenciar e beber o samba. Sociabilidade, então, são as formas de encontro, compartilhamentos de valores e símbolos em torno da agremiação. É o beber no mesmo copo, chorar a mesma dor, discordar e concordar em questões de segundos. Esse "estar junto", na sociabilidade, é a troca que fricciona, separa, mas que também une.

Historicamente, as quadras de escola de samba eram chamadas de terreiros, em uma alusão indireta - ou direta?- aos terreiros de religiões de matriz africana crescentes, na cidade do Rio de Janeiro, desde a segunda metade do século XIX. Ao entender a quadra a partir dessa nomenclatura não só a localizamos em um tempo, mas também racializamos o debate entendo os terreiros como uma construção espacial da diáspora negroafricana e que, no período do pós-abolição, foram locais fundamentais para a construção desses laços invisíveis que uniam os negros em torno da sobrevivência num caótico e desumano mundo racista excludente.

Pisar em uma quadra, mesmo que de forma imperceptível, possui um sentido ancestral? Sim, mas não para todos. Se entendemos as sociabilidades como múltiplas e complexas , as quadras-terreiros de escolas de samba, no decorrer de sua história, foram adicionando outras camadas de sentido a esses espaços. O sentido, aliás, não é algo que se retira, mas inclui-se.

Ao longo dos anos 60 e 70, iniciou-se um movimento, por parte dos próprios sambistas, de se repensar o papel de suas quadras de escolas de samba na cidade. Se, antes, eram restritas à frequência de pessoas pertencentes àquela comunidade, pouco a pouco, com a participação da classe média, os sentidos iam se adicionando. Indústria fonográfica, venda de ingressos para os desfiles, shows... as quadras das agremiações iam se diversificando e, cada vez mais, enxergadas como potencial turístico e de entretenimento para uma camada com tímido contato com o " samba de morro".

É importante marcar que, ao mesmo tempo em que há a entrada desses novos componentes em interação com um modelo já estabelecido, novas formas de sociabilidade começavam a ser criadas para dar conta de um espaço que, pouco a pouco, deixava de ter um caráter restrito aos componentes da agremiação e passava a se abrir à cidade em forma de "ensaios-show".

Dentro de uma incrível capacidade que a escola de samba possui, permanentemente, de negociar seus sentidos, ganha força a sociabilidade das barraquinhas na porta das quadras das escolas de samba como uma alternativa de vivenciar esse universo. Afinal, quem nunca foi a uma noitada de samba e, papo vai, papo vem, resolveu ficar sentado, na porta da quadra, tomando uns latões na barraquinha mais amigável?

(continua)

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