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A voz do sambista na academia

Texto publicado originalmente em "Samba em Revista", Museu do Samba, 2020 Por Vinícius Natal


Acervo canal Futura


Repensando a história nacional, percebemos que o Brasil, forjado em sangue, ferro e brasa índio e negro, escreveu sua história por mãos brancas e sangue retinto. A ideia de colonizar e, assim, impor uma maneira de pensar ocidental - lucrativa e desigual para se fazer mais forte - fez-se valer e alçou nossos algozes ao patamar de heróis. Em toda nossa história, o privilégio de ter à mão o livro de memórias foi do invasor.

"(...) tem sangue retinto e pisado atrás do herói emoldurado..."

Se, por um lado, senhores de engenho e do mundo dominavam mentes e corpos, negros escravizados faziam resistência: o ritmo solto, umbigada e axé, louvação e banzo, caldeirão de sentimentos que reinventou os saberes ancestrais africanos no Brasil. Esses batuques, que ecoavam ritmos e sons, formaram a base da cultura nacional e deram origem aos sambas do país.


Sambar, portanto, é interpretar o Brasil nas malemolências das encostas dos morros e subúrbios "habitados por gente simples e tão pobre", tornando-se mais que um motivo de divertimento e festejo, mas também um modo de vida que atesta, em nossos corpos, uma própria visão de mundo. Não há um gole de cerveja bebido que não esteja dissociado da ideia de devoção: ao santo, ao samba, ao lar, aos mortos, nos gurufins; os passos riscados nos terreiros são com respeito e carregam a história dos malandros que gingam para sobreviver; os olhares são recheados de quereres e sociabilidade: falam sobre lugar e respeito aos mais velhos; há um saber ancestral do pavilhão que, ao girar, subverte a mística colonial dos saberes retilíneos; A poeira que levanta evoca uma visão de passado que não pode ser captada por olhares desavisados.


Mesmo que nós, sambistas, sempre tivéssemos uma reflexão profunda sobre suas próprias vivências cotidianas, nos foi inculcado que o nosso lugar seria sempre o de objeto de estudo, e não atores de nossa própria história. Afinal, o espaço social da intelectualidade brasileira fora, também, forjado para atender a uma elite senhorial capaz de domesticar e oprimir.

"Damos o nosso coração, alegria e amor

A todos sem distinção de cor

Mas depois da ilusão, coitado

Negro volta humilde ao barracão"

Ao olharmos para Candeia que, na década de 70, compreendeu esse processo e se rebelou, aprofundamos esse questionamento. O compositor rompe com sua escola de samba, Portela, criando o Grêmio Recreativo Arte Negra Quilombo, sediado em Acari, buscando a interpretação do samba enquanto uma manifestação social negra. Sambar, então, passava a ser visto como um local de reflexão, transformação e conscientização racial. Candeia entendia que, naquele momento, o sambista não precisaria se adequar a um mundo externo "produtor de conhecimento" para ser validado e nem mesmo se curvar a "folcloristas, intelectuais ou jornalistas". Se queriam aprender o nosso compasso, que o fosse sob nossas metodologias de samba no pé e nossas referências orais de terreiro.


Quase 40 anos depois, a academia - esse ente quase etéreo recheado de suas complexidades e pluralidades - tem ocupado um papel de importante espaço simbólico para a construção de conhecimento aliado à luta social e política, cada vez mais disposto ao debate. Impulsionada por uma visão ampliada de cultura somada aos estudos sociais "à contrapelo" no campo da história , a "vida acadêmica" atua como um palco de disputas narrativas onde múltiplas identidades reivindicam seu protagonismo, apesar da desigualdade epistêmica ainda ser uma problemática latente - ainda, brancos, héteros e homens cis ocupam esse lugar privilegiado de construção narrativa.


Entender de que maneira jogamos esse xadrez intelectual e utilizamos esse espaço para que nossa versão da história seja ouvida e contada é fundamental. Mesmo que os muros de uma universidade possam ser lidos como uma amálgama da exclusão social que nos foi reservada ao nascermos como minorias, é importante o rompimento social do monopólio do conhecimento como forma de libertação das mentes e corpos.

Candeia, outrora, cantava:

"Porque o sambista não precisa ser membro da academia Ser natural com sua poesia e o povo lhe faz imortal"

Não há porque discordar de Candeia no sentido da defesa de que os próprios valores dos sambistas devem se validar a partir de seus próprios termos. Entretanto, a academia, hoje, é uma possibilidade real na trajetória de muitos sambistas que entendem que a ocupação desses espaços faz parte de uma estratégia do entendimento do seu lugar de ação transformadora no mundo social. Adentrá-la não significa dançar sob a batuta da premissas coloniais, mas sim negociar para subvertê-la, abalando a base do status quo e questionando os modelos canônicos.

"Negro não se humilhe nem humilhe a ninguém

Todas as raças já foram escravas também

E deixa de ser rei só na folia(...)"

Sejamos, nós, compositores questionadores de nossa própria poesia, pois na caneta e na pele moram os segredos mais profundos trançados nos terreiros sambadeiros do nosso Brasil.


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